De casa religiosa a hostel lisboeta vão poucos anos de distância

É um palacete a caminho do centenário, que agora abriu portas a hóspedes. Com a peculiaridade de antes ter sido uma residência religiosa onde nem tudo é o que parece

No topo da altíssima porta da entrada ainda se vê o nome e o símbolo: Servas de Maria. A porta sempre fechada, as cortinas sempre corridas, davam ao edifício da rua do Forno do Tijolo, em Arroios, o ar conventual que a fachada austera não desmente. Mas na Lisboa em que o turismo é rei, o que é que pode acontecer? Pode acontecer a casa religiosa virar… um hostel.

Chama-se Brickoven (versão inglesa de Forno do Tijolo) e tem algumas características especiais. A começar pelo facto de os novos proprietários do edifício terem mantido praticamente todos os elementos originais. Não parece assim tão estranho? E se um desses elementos for um painel de azulejos com uma imagem de Santa Luzia que, seguindo a iconografia da mártir cristã, transporta num prato os dois olhos?

Uma recordação da fase “conventual” do edifício, certo? Errado. É da construção original. Lá fora, no extenso jardim traseiro, nova imagem de Santa Luzia, desta vez uma estátua de pedra sobre um pedestal (e sem o prato). Também não é devoção das antigas ocupantes… é da construção original.

O ano de construção do palacete da Rua de Arroios não é claro, mas remontará às primeiras décadas do século, tendo sido adquirido pela congregação religiosa no início da década de 60. As irmãs, da congregação Servas de Maria Ministras dos Enfermos, estiveram na casa até 2012. Desde então e até ao início deste ano o edifício esteve fechado. No bairro conta-se que o dono original do edifício estaria ligado ao ramo do café, o que é tanto mais fácil de acreditar quando se sente no ar o inconfundível aroma do café. Não é casual: logo atrás há uma fábrica onde ainda se faz torrefação.

Há quem seja mais preciso e atribua a casa a um “senhor Macário” – que seria o fundador da centenária Casa Macário na Rua Augusta (informação que não foi possível confirmar na casa comercial que pertence, já há décadas, a outra família). O registo predial do imóvel não esclarece o mistério. Os dados disponíveis remontam a 1922, ano em que a casa é deixada em testamento a um advogado, que chegou a ser deputado, e que vende o edifício pouco depois por “30 mil escudos”.

Em 1925 é vendido, desta vez por “75 mil” e depois por “180 mil escudos”. Em 1961 o edifício é adquirido pela Congregação das Servas de Maria por “quatro mil contos”.

As portas agora abertas do palacete da Rua do Forno do Tijolo revelam um edifício peculiar, com um interior tudo menos austero. Na entrada sobressaem as colunas de capitéis trabalhados, em dourado velho, e um enorme lustre encimado por um vitral, além do chão de madeira também trabalhado (o que se repete por todo o palácio, com diferentes padrões). As várias salas dividem-se entre diferentes estilos, quase sempre com tetos trabalhados, destacando-se a sala com motivos arabescos – características que aproximam o palacete de alguns exemplares existentes em Lisboa, de inícios do século XX. O edifício tem também uma enorme profusão de azulejos, de estilos muito distintos.

No meio do jardim, um extenso espaço que não se adivinha do exterior, dominado por uma enorme araucária, o palacete tem outro elemento desconcertante – uma casa de bonecas. Ou seja, uma casa a sério (que em vários aspetos replica o palacete), mas em ponto pequeno, que o proprietário original terá mandado construir para a filha.

Intervir o “mínimo possível”

Os atuais proprietários, três amigos, consultores – Ricardo Constantino, António Pereira e Cristina Fernandes – foram encontrar o palácio à venda numa imobiliária por cerca de dois milhões de euros, investindo mais cerca de 400 mil na adaptação do espaço. Aberto no início de setembro, o Brickoven Palace tem capacidade para 120 pessoas, em 23 quartos que se distribuem por quatro pisos, e vão de uma suite familiar para quatro a dormitórios de 10 e 12 camas.

Dora Peralta é mulher de Ricardo Constantino e acompanhou a par e passo a “reconversão” do edifício. “Tentámos fazer uma coisa simples, intervindo o menos possível”, diz ao DN. A lista do que foi mantido (ou, num ou outro caso, refeito conforme o original) é extensa – ferragens, vitrais, candeeiros, madeiras, azulejos, móveis. E porquê um hostel, num palacete que se enquadraria bem noutro perfil de alojamento turístico tão em voga em Lisboa, o hotel de charme?

Duas razões, aponta a proprietária: um conceito diferente; e o facto de o edifício ter um último andar (construído posteriormente) em claro contraste com os restantes, sóbrio e sem ornamentos. E, já agora, o porquê da escolha de a Santa Luzia – seria uma santa da devoção da mulher do proprietário original.

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Fonte: dn.pt

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