As mãos no volante e os olhos no Douro, na “melhor estrada do mundo para conduzir”

Dividir atenções entre curvas exigentes e uma paisagem deslumbrante é mais fácil do que parece entre Peso da Régua e Pinhão — na estrada escolhida como a melhor do mundo para conduzir. A Fugas fez esses 27 quilómetros de Porsche.

A infância de Luís Lacerda tinha o Douro como cenário. O motivo das visitas constantes era o trabalho do seu avô, director-geral da Croft, uma das mais antigas produtoras de vinho do Porto. “Na Páscoa, na matança do porco, nas vindimas, cá vinha eu. Até aos 16 anos, passei muito tempo aqui”, conta. Agora, com 33, dedica a vida aos automóveis e é um dos pilotos que conduz a Fugas à descoberta da estrada que foi escolhida como a “melhor do mundo para conduzir”.

Durante a infância e a adolescência percorreu muitas vezes estes 27 quilómetros da estrada nacional N222. Antes de se tornar piloto, habitou-se ao serpentear das curvas e contra-curvas entre Peso da Régua e Pinhão, mas também ganhou gosto pelos pedaços da via em que é possível contemplar a paisagem. Ao longo de todo o caminho, o rio está sempre bem próximo, com os socalcos do vale do Douro a espreitarem de esguelha para condutores e passageiros. “O perigo é uma pessoa maravilhar-se com isto”, comenta, divertido, Luís Lacerda.

Subimos o Douro de carro, enquanto outros viajantes o sobem de barco ou de comboio. A linha ferroviária segue praticamente paralela à N222, na margem oposta do rio. A dada altura, os três meios de transporte conseguem estar lado a lado, como que se estivessem a cruzar tempos diferentes da vida desta região. Aos olhos saltam as diferenças de cor que a luz do sol cria entre os vários planos do vale e os contrastes entre as paisagens que se sucedem, das encostas rochosas aos socalcos que, nesta altura do ano, são já de um verde muito vivo.

A escolha da N222 como “World’s Best Driving Road”, pela Avis, é, de resto, baseada neste equilíbrio entre o traçado entre a Régua e o Pinhão e o vale do Douro. A empresa de aluguer de automóveis pediu a uma equipa constituída pelo físico quântico Mark Hardley, o designer de circuitos de Fórmula 1 Hermann Tilke e o criador de montanhas-russas John Wardley, para desenvolver uma fórmula que permitisse definir os critérios através dos quais pudesse ser escolhida a “melhor estada do mundo para conduzir”. A fórmula aponta para um índice ideal de 10:1, ou seja dez segundos de condução em linha reta para cada segundo gasto numa curva. A ideia é combinar a experiência de condução desportiva das curvas, com o tempo para apreciar a paisagem nos pedaços em que a viagem se faz em recta.

A N222 no Douro oferece uma relação 11:1, um valor praticamente idêntico àquele que é considerado perfeito. A experiência de condução nesta estrada é, de facto, quase tudo aquilo que a fórmula da Avis promete. Há rectas com limite de velocidade estabelecido a 90 quilómetros por hora, onde é possível puxar pelo motor de um automóvel. Noutros troços, a velocidade recomendada é mais baixa, tornando-se no momento ideal para olhar o rio e a paisagem em volta.

Por outro lado, o número de curvas cria um desafio para os condutores mais exigentes: são 93, ao todo, ao longo deste troço, algumas com uma inclinação lateral que acrescenta emoção ao percurso. Serão estes momentos a fazer as delícias dos amantes da condução desportiva. Especialmente na zona onde estão as curvas mais interessantes, já próximas do cruzamento de acesso ao Pinhão, um pouco antes da ponte sobre o rio Torto. “Parece o rally da Córsega”, atira, entusiasmado, Pedro Moleiro, enquanto conduz o Porsche 911 GTS com que a Fugas conheceu a fundo a estrada. O piloto acelera e trava rapidamente entre as cerca 20 curvas que se concentram neste pedaço do trajecto, entre algumas que são autênticos “cotovelos” e outras mais longas e inclinadas. Sem que a velocidade chegue nunca a ser muito elevada, a sensação deste bailado do carro impressiona.

A estrada duriense é, contudo, bastante interessante em toda a extensão distinguida pela Avis. Desde o seu início, em frente a Peso da Régua, passando por baixo das duas pontes que ligam a cidade a Lamego (a mais antiga, na Estrada Nacional 2, e o viaduto da A24), a via tem uma relação de privilégio com o rio, que se pode olhar com segurança e à vontade, dado a suavidade da primeira fase do trajecto. A partir de Folgosa do Douro a estrada ganha outro interesse, contornando a longa deriva que o Douro faz para Norte pouco depois. Depois de se cruzar a ponte sobre o Rio Távora, a viagem torna-se mais entusiasmante. Uma primeira curva apertada, um desnível do terreno mais acentuado, em subida, e aumentando o número de curvas, em graus de dificuldade elevada, que atingem o seu ponto máximo na fase final, mais próxima da ponte sobre o rio Torto. É aí que se toma o cruzamento para o Pinhão – vila à qual o acesso é já feito pela N323. Ao longo de todo o percurso, de um e outro lado do rio, os logotipos e nomes das marcas de vinho que produzem no Douro vão-se sucedendo, lembrando-nos do que se faz aquele vale.

Habituado, desde pequeno, a esta dança do automóvel entre os socalcos da vinha e a margem do rio Douro, o piloto Luís Lacerda sente-se à vontade no caminho. “Não fiquei nada surpreendido com esta escolha. Há aqui pedaços que são realmente bons”, explica. E conta que, em tempos, “até já tinha pensado que pudesse haver ralis aqui”. Todavia, é fácil perceber por que nunca aconteceu uma competição automóvel aqui. Afinal de contas, esta é a única ligação rodoviária entre a Régua e o Pinhão e é uma estrada que mantém uma utilização muito regular no dia-a-dia.

Esse é, aliás, uma das desvantagens da N222, que impede uma experiência de condução perfeita. O movimento de veículos, entre ligeiros e camiões, é intenso durante o dia. “Quando for a época das vindimas, com os camiões do vinho aqui a passarem, pode complicar um bocado”, avisa Lacerda. Os outros grandes obstáculos na via entre Régua e Pinhão são a fraca visibilidade de algumas curvas e a estreiteza da ponta sobre o rio Távora, que impõe contenção à velocidade. À parte destas dificuldades, o percurso de 27 quilómetros faz-se com prazer, de volante na mão e olhos no Douro.
Nos EUA, na segunda “melhor estrada do mundo”
Um longo namoro com o Pacífico

São Francisco já tinha ficado para trás há quase 200 quilómetros, quando parámos um pouco antes da Bixby Creek Bridge. Era obrigatório fazer a fotografia da praxe junto a um dos pedaços mais icónicos de Big Sur. O arco perfeito em betão armado daquela ponte está em selos, postais, livros e filmes. Agora também ficava no rolo da câmara analógica e no cartão da máquina digital.

O sol começava a baixar, mas ainda faltava uma hora para que se pusesse no Oceano Pacífico. Lá em baixo – muitos metros lá em baixo – uma praia quase inacessível era praticamente toda inundada pelo mar. E os viajantes como nós inclinavam-se para tentar perceber melhor a paisagem de chorões e terra árida com que se desenha toda aquela zona da costa oeste dos EUA.

A estrada duriense é, contudo, bastante interessante em toda a extensão distinguida pela Avis. Desde o seu início, em frente a Peso da Régua, passando por baixo das duas pontes que ligam a cidade a Lamego (a mais antiga, na Estrada Nacional 2, e o viaduto da A24), a via tem uma relação de privilégio com o rio, que se pode olhar com segurança e à vontade, dado a suavidade da primeira fase do trajecto. A partir de Folgosa do Douro a estrada ganha outro interesse, contornando a longa deriva que o Douro faz para Norte pouco depois. Depois de se cruzar a ponte sobre o Rio Távora, a viagem torna-se mais entusiasmante. Uma primeira curva apertada, um desnível do terreno mais acentuado, em subida, e aumentando o número de curvas, em graus de dificuldade elevada, que atingem o seu ponto máximo na fase final, mais próxima da ponte sobre o rio Torto. É aí que se toma o cruzamento para o Pinhão – vila à qual o acesso é já feito pela N323. Ao longo de todo o percurso, de um e outro lado do rio, os logotipos e nomes das marcas de vinho que produzem no Douro vão-se sucedendo, lembrando-nos do que se faz aquele vale.

Habituado, desde pequeno, a esta dança do automóvel entre os socalcos da vinha e a margem do rio Douro, o piloto Luís Lacerda sente-se à vontade no caminho. “Não fiquei nada surpreendido com esta escolha. Há aqui pedaços que são realmente bons”, explica. E conta que, em tempos, “até já tinha pensado que pudesse haver ralis aqui”. Todavia, é fácil perceber por que nunca aconteceu uma competição automóvel aqui. Afinal de contas, esta é a única ligação rodoviária entre a Régua e o Pinhão e é uma estrada que mantém uma utilização muito regular no dia-a-dia.

Esse é, aliás, uma das desvantagens da N222, que impede uma experiência de condução perfeita. O movimento de veículos, entre ligeiros e camiões, é intenso durante o dia. “Quando for a época das vindimas, com os camiões do vinho aqui a passarem, pode complicar um bocado”, avisa Lacerda. Os outros grandes obstáculos na via entre Régua e Pinhão são a fraca visibilidade de algumas curvas e a estreiteza da ponta sobre o rio Távora, que impõe contenção à velocidade. À parte destas dificuldades, o percurso de 27 quilómetros faz-se com prazer, de volante na mão e olhos no Douro.
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O sol começava a baixar, mas ainda faltava uma hora para que se pusesse no Oceano Pacífico. Lá em baixo – muitos metros lá em baixo – uma praia quase inacessível era praticamente toda inundada pelo mar. E os viajantes como nós inclinavam-se para tentar perceber melhor a paisagem de chorões e terra árida com que se desenha toda aquela zona da costa oeste dos EUA.

Fonte: Publico

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