“Qualquer dia arranjamos figurantes para fazer de portugueses”

É a vender flores nas ruas da Mouraria que encontramos Luísa Costa, de 68 anos. Para a lisboeta, não restam dúvidas: nos bairros, as rendas estão a subir e os lisboetas a sair. A culpa é dos turistas, acredita. “Estão a tirar as pessoas dos prédios”, começa por queixar-se. Luísa Costa nasceu na Mouraria e não conhece outro lar, mas cada vez mais se sente uma estrangeira no seu próprio bairro. Enquanto fala connosco, lamenta já não conhecer as caras que passam por si. “Estou aqui há horas na rua e conto pelos dedos das mãos as pessoas que conheço”, queixa-se enquanto olha para grupos de turistas que passam ao seu lado. É fácil distingui-los: de mapa e máquinas fotográficas na mão, a maioria passeia de roupas frescas e sandálias, apesar de os lisboetas não se terem ainda deixado conquistar pelo sol tímido que espreita. “Põem as casas para os estrangeiros e qualquer dia não há ninguém nos bairros”, antevê, emocionada, acrescentando que existe “uma mágoa muito grande nas pessoas”.

Enquanto falamos com Luísa, um outro habitante da Mouraria aproxima-se. Nuno Franco, membro da associação Renovar a Mouraria, vai registando as preocupações da vizinha. “Estão a expulsar-nos para fora de Lisboa. Qualquer dia não há Baixa, não há bairros, não há marchas, não há arraial, não há sardinhas, não há nada”, continua Luísa.

A estratégia repete-se: os proprietários das casas aumentam substancialmente as rendas e, num mês, os inquilinos têm de se adaptar às novas rendas ou sair. Noutros casos, nem lhes é dada a opção. Mesmo disponibilizando-se a pagar rendas mais caras, os moradores são obrigados a sair, relatam. Prédios inteiros são vendidos a agências imobiliárias e a privados que neles investem “para depois arrendar aos turistas”, apontam.  A culpa não é dos visitantes, argumenta Nuno Franco. Luísa lá concorda. “Mas o Estado tem de se meter nisto”, afinca.

“Agora é tudo muito participativo, mas quando chega o momento, afastam-nos”, acusa Ernesto Possolo, de 50 anos, também da Mouraria. “E os presidentes da Junta vão ficar sem eleitores”, acrescenta. “E ficando sem eleitores, ficam sem dinheiro”, complementa Nuno. Continuamos a percorrer as calçadas e ruelas da Mouraria. Numa subida íngreme, um casal na casa dos 70, caminha devagar. “Isto aqui é só ‘camones’”, descreve Pedro Rodrigues, de 77 anos, enquanto um outro casal, que aparenta a mesma idade, mas com um tom de pele clara e mapa na mão, procura orientação no meio do bairro.

O prédio onde habita é um exemplo. O proprietário vendeu andares inteiros e “está sempre com freguesia estrangeira”. Mas  não se queixa. Até agora, a renda que partilha com Francisca Rodrigues, a sua mulher, não foi afectada. “Para me aumentar a renda, tem de me arranjar a casa”, assevera o lisboeta.

A opinião e preocupação com o futuro de quem paga rendas em Lisboa são transversais nos bairros mais tradicionais, não só pelo aumento dos preços das rendas, mas pela inevitabilidade de ter de abandonar os imóveis. Com casas seculares, comércio tradicional e ao lado da Baixa, o Bairro Alto é outra das zonas mais procuradas por turistas e estrangeiros. Mas encontrar moradores no Bairro Alto não é uma tarefa fácil. Já quase no final da tarde, a maioria das ruas estão vazias e vemos apenas passar alguns casais de câmara fotográfica na mão, que vão apontando para uns murais que encontram pelo caminho e fotografando uma maçaneta mais velha. Os únicos portugueses que encontramos são os empregados de restaurantes que preparam as mesas da esplanada, mas nenhum deles habita em Lisboa.

Somos forçados a tentar a sorte numa das lojas da Rua da Rosa. “Um exagero”. É assim que Odete Gomes, de 72 anos, e a viver na zona da Bica há quase cinco décadas, classifica o número de apartamentos destinados ao turismo. “As pessoas têm as casas e querem fazer dinheiro. Isso é dos livros, como se costuma dizer”, analisa. “É a lei da oferta e da procura e é natural que os proprietários respondam à procura a pensar no lucro”, comenta. Ainda assim, não deixa de criticar a estratégia e as consequências que isso traz. “Qualquer dia arranjamos figurantes para fazer de portugueses. Tudo quanto tem vagado na Bica tem sido para alugar para os turistas. Tudo”, garante Odete. A lisboeta tem uma amiga à procura de casa há meses, sem sucesso. À sua frente um apartamento onde mora está a ser remodelado, “mas para turistas”. “Acho que equilibrar por decreto não vale a pena”, considera.

Ainda assim, nem tudo é negativo. “Lisboa precisava desta remodelação, coisa que não era possível com as rendas congeladas desde o tempo de Salazar!”. “Se nós tivemos aumentos em tudo, por que é que as rendas das casas deviam ficar congeladas? Foram muitos anos assim. Foi muito mau para a cidade de Lisboa. Quem é que conseguia fazer obras? A cidade envelheceu imenso”, pondera Odete. “As obras que têm havido são positivas para a cidade, mas não para os cidadãos. Mas paciência, um dia isso há-de mudar”, acredita. “Em tudo se exagera sempre um bocadinho. Vão dizer aos senhorios o quê? Que não podem alugar? As coisas não podem ser assim”. E continua: “Conheço um caso concreto em que faleceu a senhora que arrendava a casa, que vivia com o filho, com a nora e com a neta e não lhes deram sequer hipótese de aumentar a renda. Deram-lhe simplesmente uma ordem de despejo, porque o prédio está a ser todo arrendado para turistas. Isso não se faz”, relata emocionada. “Devia haver um equilíbrio. E é esse equilíbrio que os portugueses não têm”, conclui Odete.

Fonte: Público

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