O caçador de lojas de souvenirs agora vai contar hotéis na Baixa

João, sociólogo, mora há cinco anos no coração da capital e quer serviços para moradores. Só lojas de recordações contou 52. Mas critica posições extremadas em relação ao turismo

João Fernandes tem 35 anos, reside na Calçada de São Francisco, na Baixa de Lisboa, há cinco e não se conforma por, “enquanto morador”, não ter “nada” para si perto de casa nem conseguir dar um passeio sem que alguém lhe mostre um menu a perguntar se quer almoçar ou jantar.

A indignação já o tinha levado a lançar uma petição, que chegou a ser apreciada na assembleia municipal, a solicitar uma ação imediata sobre os supostos traficantes de droga no centro da cidade e, há cerca de um mês, incentivou-o a contar o número de lojas de baixo custo que existem entre a Praça do Rossio, a Rua da Betesga e a Praça da Figueira, a norte; a Rua do Arsenal, o Terreiro do Paço e a Rua da Alfândega, a sul; a Rua Nova do Almada e a Rua do Carmo, a oeste; e a Rua da Madalena, a este. Ao todo, são 52 os espaços que vendem galos de Barcelos ou camisolas da seleção nacional de futebol com o nome de Cristiano Ronaldo impresso nas costas – um número que seria bastante mais elevado se a contagem tivesse incluído as artérias escolhidas como limite do território abrangido pelo estudo.

“Tinha de ter um critério e esta área é a que tradicionalmente corresponde à Baixa Pombalina”, explica ao DN o sociólogo, que garante não ter ficado surpreendido com o resultado. “Morando ali e passando ali diariamente, acabou por não me surpreender”, sublinha, ressalvando que não tem nada “contra os comerciantes” que as exploram e que são, maioritariamente, imigrantes. O problema é que, alega, “são muitas” e descaracterizam a Baixa, ainda que, ressalva, sejam “apenas um elemento”. Tenciona, por isso, vir a contar também o número de hotéis e de espaços de alojamento local que ali existem “assim que tiver alguma disponibilidade”.

João Fernandes, que prefere não ser fotografado, lembra que o levantamento em causa “contempla apenas o número absoluto de lojas” e que “seria relevante de futuro calcular o [seu] peso percentual [número de “lotes” ocupados/número total de “lotes”]”. Por agora, fez esse exercício apenas para a Rua da Prata, onde foi contabilizado o maior número de lojas de baixo custo – 14, correspondente a “uma ocupação de cerca de 5%”. “Seria interessante calcular esta percentagem em todas as ruas e comparar as percentagens de outros tipos de atividade”, sugere.

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Apostar na diversidade

Defensor de que uma Baixa caracterizada é uma Baixa “diversificada” com moradores, turistas e atividades económicas que não estejam dedicadas somente a um setor, o lisboeta, que antes morava no Bairro Alto, critica a polarização cada vez mais habitual ao debater-se o crescimento do turismo na capital. “Quando partilhei [o documento] com alguns blogues, notei logo posições extremadas”, recorda, admitindo que, no caso das chamadas lojas de recordação de baixo custo, há quem ceda ao racismo e à xenofobia. Talvez por isso termine o estudo comparando o caso destes estabelecimentos com o dos dedicados à venda de drogas legais, “cuja legislação resolveu a sua proliferação”.

“As lojas de recordações de baixo custo vendem todas o mesmo. Seria exatamente igual se só houvesse lojas de conservas antigas. Qualquer loja pequena que fecha tende a transformar-se numa loja destas. São lojas com uma dinâmica de trabalho diferente da nossa, mais alargada. Não é nada contra os imigrantes. Em qualquer negócio ou ramo que esteja a crescer demasiado, punha-se uma quota”, salienta, reiterando que faltam na Baixa comércio e serviços dirigidos a quem ali mora.

João Fernandes não compreende ainda a ideia de que há outros assuntos com que se preocupar, até porque reside numa artéria quase exclusivamente habitacional. “Há vários problemas, neste momento estou preocupado com este”, defende, frisando que o assunto se tem tornado mais mediático, nomeadamente desde que em março foi anunciado o encerramento, entretanto suspenso, das discotecas Tokyo, Jamaica e Europa, no Cais do Sodré. “Este é apenas um contributo”, sustenta, sem esconder que “leva a peito” a forma como diariamente é importunado ao andar na rua: “Uma vez na Rua dos Correeiros queixei-me e o que me responderam foi “não ande por aqui”.”

Fonte: Diário de Notícias

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