Vende-se uma Lisboa multicultural

O ponto de encontro é junto à Igreja de São Domingos, no Rossio, em Lisboa. Uma mulher guineense vende amendoins, e cola (espécie de castanha bem amarga que tem propriedades antioxidantes e estimulantes e costuma ser vendida na Guiné-Bissau). “Não se tiram fotografias a esta senhora”, diz Filipa Bolotinha, responsável pela Associação Renovar a Mouraria, que organiza tours no bairro feitas por “guias locais” – hoje é Fátima Ramos, historiadora, quem vai liderar.

Mais à frente, outra vendedora tem uma banca com cajus, cola e piticola, cabacera, quiabos, óleo de palma. Os “turistas” do grupo espreitam os produtos por cima dos ombros uns dos outros. Mais uns passos e é subir as Escadinhas da Barroca. Paragem num supermercado com produtos africanos: bolachas típicas de Cabo Verde, tâmaras, tapetes para rezar “que não podem ter figuras de animais, nem imagens com olhos”, diz a guia. Lá dentro há tabaco, farinhas várias, pilões para moer grãos.

Fátima Ramos, professora, 40 anos, faz estes tours de vez em quando há ano e meio. Quer mostrar a diversidade cultural e “como é que neste pequeno espaço conseguem estar culturas diferentes e viver de forma pacífica”, culturas que “representam também uma parte da própria cultura portuguesa”. “Se formos à praça do Martim Moniz temos de um lado os paquistaneses a jogarem cricket, do outro os chineses a fazerem as suas ginásticas matinais, do outro um muçulmano a rezar… E estão ali pacificamente no meio da comunidade portuguesa”, assinala entusiasmada e optimista.

Fátima Ramos, historiadora (ao centro na fotografia) serve hoje de guia pelo tour na Mouraria

Vai olhando à volta para descrever esta “babel”, que “contraria o mito” porque aqui convivem línguas, religiões e culturas diferentes mas “não se afastam”. “Quando há celebrações cristãs, os muçulmanos, hindus participam. Há cabeleireiros onde têm a imagem de nossa senhora de Fátima ao lado dos hindus”.

A tour andará muito à volta do comércio da zona, isto porque, justifica, é a actividade a que se dedica grande fatia da população imigrante do bairro.

David Kong, 35 anos, suíço, olha em volta com óculos escuros. Vai mandando piadas mais sarcásticas. Vive há dois anos em Portugal e queria conhecer a Mouraria. “Não gosto muito da gentrificação que estão a fazer, prefiro o meu bairro, a Colina de Santana”, comenta. Acha que a guia deveria mostrar o lado negativo, a sujidade, a prostituição, as drogas, coisas que ele sabe que existem porque já viu várias vezes. “Devia expor tudo e depois nós tiramos a nossa conclusão”.

A historiadora aponta agora: está aqui a praça do Martim Moniz, para onde levou o grupo, um lugar que já teve várias funções, e hoje é “alusivo à fusão cultural que existe na zona”. À frente está o Mercado de Fusão, com quiosques de gastronomia de várias partes do mundo.

Atravessamos o centro comercial da Mouraria: na cave as lojas vendem coisas de várias partes do mundo, saris indianos, bijutaria, roupas com padrões “étnicos”, alimentos e especiarias que só se encontram mesmo aqui. O grupo “entope” a entrada da mercearia de onde vem um cheiro intenso. O dono gosta desta “invasão” porque em cada visitante vê um potencial cliente. “É bom para a zona que está a ficar um bocado morta”, comenta.

Mas esta harmonia não é dominante, como, aliás, notou David. Não haverá o risco de passar uma imagem demasiado idílica da diversidade cultural lisboeta, perguntamos a Fátima Ramos? “Na parte institucional, existem muitas barreiras e dificuldades para o imigrante poder exercer os seus direitos”, reconhece a historiadora filha de cabo-verdianos. “Mas no terreno as pessoas conseguem fazer essa integração de forma mais rápida e natural”, conclui, pouco antes de apontar para as muralhas da cidade.

Uma das visitantes, Joana Jacinto, 24 anos, moradora na Mouraria há ano e meio, não dá, porém, essa imagem tão harmoniosa do convívio. “Falo com as velhotas do prédio e continuam a referir-se a esta multiculturalidade como os ‘monhés’. Continua a haver um bocadinho o choque cultural. Isso tem a ver com uma mudança muito rápida na Mouraria, os filhos que se foram embora e não querem viver aqui e estas diferentes culturas a aparecerem e a revitalizarem as lojas”, analisa.

Não existem dados sobre a diversidade étnica e racial dos portugueses porque não é permitido esse tipo de recolha de dados, então ela mede-se apenas pela imigração. Na Mouraria, estima-se que existam cerca de 50 nacionalidades, correspondendo a um quarto dos habitantes, diz o Censos 2011.

Só no concelho de Lisboa, ao contrário da tendência do resto do país, é que a população imigrante tem crescido: em 2013 esse crescimento foi de 1,1%, perfazendo um total de quase 46 500 imigrantes, valor que aumentou para 50 mil em 2014 – para se ter uma ideia, no Porto a população estrangeira é de 8 mil e só Sintra se aproxima de Lisboa com quase 33 mil (dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras relativos a 2014).

Como é que Lisboa, e a área metropolitana, estão assim a trabalhar a sua diversidade cultural em termos turísticos numa altura em que os números desta área não param de crescer? (Dados do World Travel & Tourism Council para Portugal mostram que o contributo directo do turismo para o PIB português deverá aumentar de 11,3 mil milhões de euros – 6,4% do PIB em 2015 – para 11,7 mil milhões este ano).

Algumas mudanças na Mouraria podem servir de barómetro. Por isso mesmo os “turistas” que hoje fazem este percurso com Fátima Ramos interrogam-se. Joana Jacinto quer saber o que  os moradores pensam da injecção de dinheiro nesta zona.

O bairro foi mudando, sobretudo depois do projecto da Câmara Municipal de Lisboa de requalificação, com a renovação de praças e edifícios e o investimento em percursos turísticos. Houve a mudança(2011) do gabinete do então presidente da Câmara, António Costa, hoje primeiro-ministro, para o Largo do Intendente. Daí tornou-se pólo de atracção turística, não só para lisboetas como para restantes portugueses e estrangeiros.

“As pessoas mais novas se calhar vêem aqui oportunidades de negócio, talvez os mais velhos sintam que há mais barulho”, por exemplo – responde a guia. “Mas a injecção para quebrar a exclusão social faz todo o sentido”, sublinha.

 

 

Filipa Bolotinha, que vive e trabalha na Mouraria, intervém para dizer que “não se deve diabolizar o que está a acontecer” porque até agora as “pessoas estão contentes com o que aconteceu no seu bairro”. Reconhece que se chegou a “um ponto em que é possível vir a ser necessária uma segunda intervenção que tem a ver com a questão do turismo e dos apartamentos”. Ela própria nota que o grande problema hoje é que quem quer ir para lá viver não consegue, “não há apartamentos para alugar”, desabafa para o grupo. “Conheço muita gente que está à procura e não encontra”. É verdade que talvez o preço das casas tenha que subir, “porque estamos no centro de Lisboa”, mas a questão é que a escassez se deve ao facto de “toda a gente querer alugar a turistas”, pois “ganha muito mais dinheiro”.

Independentemente disso, as visitas organizadas na Mouraria têm como objectivo mudar a maneira de pensar da população portuguesa sobre as questões da multiculturalidade, diz Filipa Bolotinha, também responsável pelo projecto Migrantour, uma rede europeia em que guias locais fazem passeios “interculturais” no qual este se integra. A ideia é quebrar os estigmas e ideias pré-concebidas e, ao mesmo tempo, “contribuir para a integração das comunidades migrantes no seu território, e da sua apropriação desse território”.

“Já te tinha dito para ires embora!”

Nem sempre a convivialidade é pacífica na Mouraria. Dia de semana à tarde e, num passeio pelas ruas estreitas do bairro que fica numa colina, vêem-se alguns turistas, poucos moradores. Numa esquina há um restaurante que já veio em guias turísticos. O dono do espaço há 30 anos confessa que nem toda essa diversidade é aceite com bom grado. “A população vai embora, os ‘monhés’ vêm para aqui. Acha que nós gostamos deles?! Pedem 350 euros por uma casa que ninguém dá mas os ‘monhés’ metem-se lá oito e dão…”

Um dos clientes, um jovem com boné e fato de treino, sai de dentro do restaurante e desata à pancada a um homem de etnia cigana que está a vender pastilhas elásticas e outros produtos. “Já te tinha dito para ires embora!”, grita enquanto lhe bate. O saco preto fica espalhado na rua, ouvem-se berros. “O homem entra aqui 80 vezes a oferecer coisas às pessoas, as pessoas dizem que não e ele volta…”, justifica o dono do restaurante, desculpabilizando o cliente. Mas neste bairro há respeito, defende, e “há mais bandidos fora do que dentro”. Turistas são bem-vindos, e estrangeiros que queiram investir também.

A florista Fernanda, que vive na Mouraria há 40 anos, conta que uma agência imobiliária lhe chegou a oferecer o dobro pelo seu apartamento – não aceitou. A proliferação de hostels está a descaracterizar o bairro, acusa. As mudanças foram muito grandes: “Havia bairrismo e essa tradição está a acabar”, lamenta. “Toda esta imigração conseguiu encaixar na Mouraria. Antigamente as pessoas tinham a sua porta aberta, roupa estendida e agora vêem-se muitos chineses, paquistaneses, indianos, que se infiltram dentro de uma casa, duas ou três famílias. O bairro começa a não ser lisboeta. A tradição de fazer o fogareiro à porta, assar sardinhas e convidar os vizinhos está-se a perder”.

Timóteo Macedo recebe-nos na sede da Associação Solidariedade Imigrante, que tem 26 600 associados de mais de 97 nacionalidades. É um espaço em plena Baixa, num prédio junto ao Terreiro do Paço. Lá dentro, a mesa tem vários homens com papéis à frente, ajudados por um dos funcionários da associação. Atendem dezenas de pessoas por dia. “O que acontece neste momento é que de repente transforma-se o Martim Moniz no ‘mercado de fusão’. E quem frequentava antes? Eram muitos imigrantes que moravam nas imediações, os seus filhos que iam jogar à bola. Eram espaços de partilha. Há o fenómeno de centrifugação e as pessoas são cada vez mais afastadas para mais longe”, critica.

Timóteo Macedo nem sequer considera positivo para a imigração a afluência de turistas e a revitalização com a organização de eventos em lugares como o Mouraria e Intendente. “Ali estigmatiza-se a própria imigração”, critica. “Faz-se folclore”.

Mouraria, Intendente, Martim Moniz são zonas com muitos imigrantes. Chamam-se turistas para “ver o exótico”

Leia a notícia completa no Público.

Fonte: Público
Anúncios