A “tempestade perfeita” brasileira e o apelo do imobiliário português

Nenhum país suporta por muito tempo uma crise política e económica com a dimensão da que o Brasil atualmente enfrenta. A crise de confiança que é medida em relação aos consumidores merecia igual indicador para medir a crise de confiança no regime. Sem considerar o cenário económico e financeiro difícil, atualmente, a crise política que divide o país minou qualquer perspetiva de estabilidade a curto e médio prazo, com ou sem a atual presidência.

O setor imobiliário, um dos mais produtivos e indicativos de qualquer economia, tem naturalmente sofrido com esta situação. Hoje, no Brasil, as casas não se vendem, nem com “descontos” de 50% sobre os preços praticados em 2014 e mesmo no início de 2015. A lógica diria que quem não tem a necessidade de recorrer ao crédito devia aproveitar estes “saldos” do momento. Esta lógica aplica-se mais ainda a investidores estrangeiros, que para além de assistirem a uma grande redução dos preços dos imóveis, beneficiariam com a forte desvalorização do real, que caiu 48,3% face ao dólar em 2015.

Mesmo para quem necessite de crédito, as condições garantidas pelos bancos brasileiros nunca foram tão aliciantes. No entanto, nem as últimas medidas da Caixa Econômica Federal – que elevou de 50% para 70% o limite de financiamento no crédito à habitação para trabalhadores do setor privado e para 80% no caso dos funcionários públicos –, têm levado as pessoas a comprar casa.

Com o país politicamente dividido, independentemente do possível ‘impeachment’ de Dilma Rousseff ou da sua permanência, a situação não irá ser remediada a curto prazo. A violência que se manifesta nos protestos entre os apoiantes de ambas as fações é prova desta divisão, que já levou alguns comentadores a negarem a possibilidade de haver uma guerra civil. Ora, quando comentadores se referem a “guerra civil”, mesmo que para negar a sua possibilidade, isso já é um indicador gravíssimo. Este facto tem um impacto muito mais nefasto no índice de confiança dos consumidores do que outros indicadores económicos, como a taxa de inflação ou o crescimento do PIB, por exemplo.

A “tempestade perfeita” está a minar qualquer perspetiva de recuperação do setor imobiliário. É preciso não esquecer que um dos fatores que contribuiu para a situação política atual foi a economia do país. A taxa de inflação está atualmente acima dos 10% enquanto o imobiliário desvaloriza, nalguns casos, mais do que 50%. A expetativa é para uma queda continuada dos preços das casas, surgindo assim uma lógica de deflação que afasta o investimento e alimenta o excesso de oferta de imóveis no mercado. Para se ter uma ideia, a média registada em São Paulo nos anos que precederam a crise é de 17 mil habitações para venda. Hoje existem 31 mil unidades sem comprador. As pessoas acreditam que o mercado continuará a arrefecer, o que resulta em preços ainda mais baixos.

A “tempestade perfeita” do Brasil tem levado os investidores brasileiros a procurarem cada vez mais o mercado imobiliário português. Hoje, Portugal é visto pelo investidor imobiliário como uma grande oportunidade. O país esteve fora do “radar”, mas atualmente é visto como ‘the next big thing’. O aumento do turismo trouxe uma nova visibilidade e é agora tido como natural e inevitável. Portugal esteve sempre na sombra dos grandes centros turísticos, sem razão. Já há muitos analistas que comparam o crescimento que se vê hoje em Lisboa, por exemplo, com o que ocorreu em Barcelona depois dos jogos olímpicos de 1992. Isto traz confiança para quem quer investir neste setor. A “tempestade perfeita” brasileira vem assim contribuir para o “ciclo virtuoso” que se vive no imobiliário em Portugal.

 

Fonte: Económico

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