Intendente: os muros que dividem os mundos

Multicultural, multiétnico, poliglota. Os adjetivos que caracterizam a zona do Intendente são reflexo das 79 nacionalidades que aqui habitam. Mas nem sempre foi assim. O BI foi perguntar aos portugueses que aqui moram há décadas o que sentem sobre o “novo bairro”. E deparou-se com uma opinião unânime.

Há gente de todas as cores, tamanhos, formas e feitios, qual catálogo da vida real da Benetton. Paquistão, Palau, ilhas Caimão, Burkina Faso, Reunião (sim, há gente das ilhas Reunião, a leste de Madagáscar, a morar aqui). Os pedidos de atestado de residência da Junta de Freguesia de Arroios contam 79 nacionalidades diferentes, resultando numa mistura étnica e cultural única que cada vez tem mais eco. Um eco de muitos idiomas.

Hoje em dia, muita gente de todo o país se dirige propositadamente ao eixo Intendente-Martim Moniz por esse ser um dos poucos locais do país onde é possível comprar produtos exóticos que nos entram pelo ecrã dentro. Chacuti, algas wakame, centenas de especiarias, pastas de caril de todas as cores, etiquetas inomináveis sem tradução, cestos de cozer a vapor, woks de pesado fundo de ferro, colares de plástico, de madeira, de penas, roupa made in China, saris da Índia, timur nepalês (uma espécie de pimenta)… a lista é infindável, heterogénea, sensorial.

Não foi sempre assim. O Intendente não teve sempre a miríade de nacionalidades que agora alberga, tempos houve em que ser estrangeiro ali era exceção e não regra. Mas o que pensa, afinal, quem nunca de lá saiu? O que mudou no Intendente nos últimos 50 anos? Foram estas questões que o BI colocou a habitantes e comerciantes de uma nacionalidade que é, continuamente, mais difícil de encontrar: portugueses. Embora com as naturais diferenças, a opinião geral é unânime. Os portugueses que lá vivem há décadas não são fãs da multiculturalidade que por ali se foi juntando, mas apercebemo-nos pelas respostas de que não é xenofobia. Apenas tristeza por a maioria das lojas – portuguesas – que ali fincaram raízes durante anos terem fechado para dar lugar a um manancial de cheiros, cores e sabores estranhos, dos quais desconfiam.

Generosa, a nossa interlocutora mais velha admite mesmo que foge a sete pés “dessas coisas”. Tantos mundos nestes pouco mais de dois quilómetros quadrados, vizinhos com verdadeiras paredes levantadas dos dois lados, de quem veio e de quem estava. Ou não fosse Generosa de outros tempos.

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21 de dezembro de 1919. No segundo solstício de inverno após a I Guerra Mundial, Generosa Mesquita nasceu no Peso da Régua. “Tive dois irmãos que ficaram com o apelido do meu pai no registo, Monteiro. Eu e a minha irmã, como éramos raparigas, ficámos Mesquita.” Falar disto 96 anos depois do dia que a viu nascer mostra a mágoa que sente por não partilhar o nome dos irmãos. Não casou, não teve filhos, viveu uma vida marcada pelo adjetivo que é também o seu nome. Generosa. “Comecei a trabalhar e depois fui trazendo a família. Trouxe cinco raparigas, cinco sobrinhas pequenas depois de fazerem a quarta classe, e três rapazes. Foram os meus filhos, os filhos da minha irmã foram os meus filhos”, conta, orgulhosa, enquanto nos vai desfiando a vida entre sorrisos.

“Nas folgas, ia buscar as crianças. Os meus patrões bem diziam que assim ninguém se ia chegar a mim, porque na rua toda a gente achava que eram meus filhos e que já era casada. Diziam-me também que, quando fosse mais velha, os sobrinhos não iam querer saber de mim. Tinham razão em tudo. As minhas pessoas de família moram todas longe. Moram em Benfica, em Olival Basto, só vêm quando telefono a pedir. Agora não tenho ninguém.” Cai uma sombra na nossa conversa, que até aqui tinha decorrido marcada pelos trejeitos divertidos que caracterizam a nossa quase centenária. “Os sobrinhos que me podiam valer já morreram, eram os que me diziam sempre que não me iam deixar sozinha. Os outros que estão vivos dizem que não têm tempo. A mim, que sempre tive tempo para eles. mesmo nas minhas folgas.”

A história da família sai-lhe num desabafo incontrolável antes de começar a relatar-nos as mudanças que testemunhou na zona onde habita há tanto tempo. “Oiço um bocadinho mal”, confessa, como que a desculpar-se.
A encosta do Douro ficou para trás muito cedo, trocada pela Rua Vítor Norton e, mais tarde, pela Rua Capitão Renato Baptista . “Vim fazer 15 anos a Lisboa, mas ia todos os anos à minha terra até os meus pais morrerem. Já moro há tantos anos na Renato Baptista que nem sei quantos”, diz a rir.

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Teve uma vida profissional multifunções. “Trabalhei em muitas coisas. Primeiro, na casa de um cônsul de Portugal. Depois fui para os restaurantes, onde estive muitos anos. Negresco, Yorkbar, Montes Claros, corri aqueles sítios todos que eram do mesmo dono. Depois saí para ir trabalhar para o pé da Madalena, num serviço da pecuária que vendia leites. Foi daí que tive a minha reforma, foi o único sítio onde fiz descontos.” Mesmo com os descontos tardios, trabalhou tanto tempo que foi obrigada pela própria empresa a reformar-se. “O que eu não queria era ir para casa, ficar fechada entre quatro paredes.” Chorou muito por ter de deixar de trabalhar, mas ainda a deixaram ficar outros dois anos, mesmo reformada, porque pediu.

Acabou por só deixar o trabalho definitivamente obrigada pelo irmão, proprietário do andar onde habita e que foi para França. Ainda hoje aí mora, na tal Rua Capitão Renato Baptista. “Aquilo levou uma volta muito grande. No prédio onde moro já não conheço ninguém, os andares foram vendidos, as pessoas entram e saem, nem percebo bem, as pessoas que compram e subalugam.”

Apesar do corre-corre que não compreende, acha que há outras coisas que melhoraram bastante como, por exemplo, o próprio Largo Intendente Pina Manique. “Está muito diferente, quem conheceu aqui este largo todo… Não se podia aqui passar em certas horas do dia por causa das meninas e dos homens, era uma pouca-vergonha, passava aqui cheia de medo. Agora é um sítio airoso, que se vive. É um sítio que se vive.”

Se das obras de requalificação gostou, dos novos negócios, nem por isso. “O comércio de antigamente desapareceu. Agora é só estrangeiros, uma pessoa nem sabe falar com eles nem coisíssima nenhuma. A Rua da Palma já não é portuguesa.” “Não vai a essas lojas fazer compras?”, perguntamos. A resposta sai disparada: “Eu não!”

“E curiosidade de provar as comidas, de ir aos restaurantes?” Mais uma vez, resposta pronta: “Que horror! No meu trabalho, quando havia alguém que fazia anos, íamos almoçar. Por portas travessas eu sabia que iam para os restaurantes chineses e dizia logo que não, a comida era uma porcaria. Nunca fui”, remata. Não desarmamos. “Mas já provou alguma vez?” Recebemos, em troca, uma onomatopeia seguida de um esclarecedor: “Tenho medo que não lavem as mãos.”.

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Costas voltadas às latitudes que vão ocupando o seu mundo, Generosa continua a fazer a sua vida na Rua Capitão Renato Baptista, embora passe os dias na Santa Casa. “Gosto muito de ir para lá, falo com muita gente e ao menos não estou fechada em casa sem ver ninguém.” No lar, a opinião entre os colegas de Generosa é unânime: o Intendente parece uma “cidade” diferente, sem comparação. “Faz de conta que vestimos um vestido novo em cima do velho.” Por exemplo, gostam de ver o edifício da fábrica de azulejos arranjado. “Vinha gente de muitos lados comprar azulejos, ainda bem que a casa está toda muito arranjadinha.” No entanto, nunca entrou na loja A Vida Portuguesa, que agora ocupa o espaço. “Tenho medo de cair.”

Generosa tem apenas um desejo quando lhe perguntamos o que ainda gostaria de ver feito na zona que é a sua casa. “Gostava que as pessoas olhassem mais umas pelas outras.” Como olhou, generosamente, pelos sobrinhos que agora não vêm.

No entanto, há aqui gente que luta contra o abandono dos idosos. O exemplo do casal Filomena (69) e Rogério Lousada (78) dá um postal daqueles que se guardam com carinho. A sua é daquelas histórias que dá vontade de escrever na memória para nunca mais esquecer. Nenhum nasceu em Lisboa – ela, em Vila Nova de Famalicão, ele, em Vila Real –, mas foi pela Rua dos Anjos que se apaixonaram e casaram, depois de terem vindo para a cidade em miúdos. Nessa rua, Rogério era já sócio da loja de cafés e chás Casa Moka. “Tínhamos um armazém e distribuíamos café para vários lados, além da venda ao público.” A loja esteve aberta 50 anos e só fechou quando o casal se reformou e vendeu o espaço a um negociante do Bangladeche. Foi, aliás, no balcão – com ela ainda cliente – que se conheceram. “Eu morava aqui na Travessa do Maldonado e ia à loja. Ele adoçou-me muito o café!”, ri Filomena. “O café, adoçavas tu”, responde Rogério. Nem seis meses namoraram. Anteontem fizeram 47 anos de casados e, atualmente, gastam as horas da reforma a ajudar quem precisa. Levam pessoas ao hospital, fazem compras de vizinhos que não podem andar e entregam-nas em casa, são voluntários do Banco Alimentar e do programa Zero Desperdício. À noite, Filomena ajuda ainda os sem-abrigo.

Uma vida e uma loja aqui aberta durante 50 anos dão-lhes um conhecimento interno da área que poucos terão. “Esta zona atravessou três fases: na primeira fase era tudo muito bom, maravilha, não havia prostituição”, começa Rogério. “Havia, mas era nos bares”, lembra Filomena. “Isto até ao 25 de abril. Não havia roubos nem drogas”, continua Rogério. “Depois foi a segunda fase, menos boa, em que o sr. João Soares acabou com o Casal Ventoso – e muito bem, porque aquilo está agora muito bonito –, mas esqueceu-se do resto. A droga veio toda para aqui, havia muitos roubos. Depois veio a terceira, ou seja, agora. O sr. António Costa veio para aqui, remodelou o Intendente, ficou muito bonito, já podemos estar aqui mais sossegados”, conclui Rogério. “Só que existe outra fase, ou melhor, outra parte”, diz Filomena. “Antigamente, o Intendente era um autêntico centro comercial, existia de tudo. Aqui era um hospital [aponta para um dos edifícios do largo]. Havia café, fábrica de açúcar e de licores, que era dos meus padrinhos. [Somos interrompidos por uma mulher que pede moedas.] A única casa que existia aqui e nunca fechou é o barbeiro. A partir daí, mudou tudo. Hoje, se me perguntarem se me sinto bem aqui, eu respondo que não. Começo no princípio da calçada e desço por aí abaixo, e parece que estou no estrangeiro, é tudo comércio de todo o lado, e não era assim.”

O marido completa. “Todo o comércio que está fechado estava aberto com outro tipo de casas, de portugueses. Frutaria, talhos – havia um talho só de miudezas –, perfumarias, duas papelarias, pronto a vestir, casa de bebés…”
Somos novamente interrompidos, desta vez por um homem a cumprimentar o casal que acode a toda a gente. “Este senhor recebe ajuda do Banco Alimentar”, explicam. “Se há neste bairro meia dúzia de portugueses que não nos conheçam, é muito”, contam, orgulhosos.

Filomena e Rogério são consideravelmente mais novos do que Generosa, mas partilham a opinião relativa ao comércio que hoje os rodeia. “Sabemos que é uma coisa cultural, mas faz-nos impressão entrarmos nas lojas e ninguém se levantar para nos ajudar. Além disso, parece que somos nós que temos de nos fazer entender e fazer um esforço, o contrário não acontece”, lamentam. Fãs de A Vida Portuguesa, que visitam regularmente, os lamentos são resquícios de quem teve uma loja aberta 50 anos e recorda a arte de bem receber.

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Uns metros ao lado da esplanada que acolhe a conversa está um destes estabelecimentos que o casal menciona. O Salão Gama não é o espaço comercial mais antigo do género aberto no Intendente, mas os 30 anos de história conferem–lhe uma memória de outros tempos. Tecnicamente, a morada é Rua da Palma número 310 mas, para um olhar distraído e menos preocupado, o Salão Gama situa-se na praça do Intendente. Até porque, visualmente, não há barreiras. Em breve, não haverá barreiras que valham a meandros de moradas: daqui a dois meses, o Salão Gama deixará o largo. O dono, António Gama, não disfarça a tristeza. “Tenho pena. Gostava de estar aqui.” O proprietário já tem um novo espaço nos Mártires da Pátria, mas foi uma decisão a contragosto, tomada depois de perceber que nada poderia fazer para manter o espaço, onde recebe clientes vindos do Seixal e até das Caldas da Rainha.

Há oito anos, o edifício onde o salão se insere ardeu.

 

“O senhorio nem veio ver os prejuízos. Queríamos reconstruir o teto, que era daqueles estuques trabalhados, muito bonitos, e nem sabíamos a quem nos dirigirmos”, conta Elisa Alves, filha do sr. Gama e funcionária do espaço.
Há quatro meses, o barbeiro António recebeu a carta de despejo. “Falei com o advogado, disse-lhes para fazerem as obras no prédio que depois voltava com a renda atualizada. Desde que fosse aos preços de mercado, estava disposto a pagar.” A resposta veio sem azo a retaliação. Era para sair. “Julgo que vão construir aqui um hotel”, contam.
António Gama gosta das novas vibrações turísticas da zona e queria aproveitar isso para o negócio. “No verão, não tem noção da quantidade de turistas que aqui vem fazer a barba e tirar fotografias”, explica Elisa. Apesar desta mudança de ares, consequência da cara lavada do bairro, pai e filha dizem que os problemas não desapareceram. “Deixou de se ver tanta droga e prostituição nas vias principais, mas ela continua cá, basta ir para as escadinhas da Graça”, apontam.

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Sobre as nacionalidades que os rodeiam, admitem que não há misturas nem muita curiosidade, e há até algum repúdio por estarem a tomar um espaço anteriormente… diferente. “Eles cortam o cabelo uns aos outros; nós, a mesma coisa. Cerca de 80 por cento dos nossos clientes não são daqui, ou trabalham na zona ou vêm cá de propósito.”

Não é apenas esta barbearia que sairá. Essa é uma tendência para a maioria dos estabelecimentos comerciais tradicionais. Por exemplo, a cervejaria na Rua da Palma onde António almoça todos os dias também vai fechar. “O sentimento é que não cabemos aqui, não há espaço para nós. Estão a vender os prédios todos para os hotéis.” Sobre a especulação que os fará levar as tesouras daqui, pai e filha têm só um qualificativo: “É um nojo.”

 

Fonte: Sol

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